quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O SALGADO DA FIGUEIRA DA FOZ UM JARDIM DE SAL, por Sónia Pinto (Câmara Municipal da Figueira da Foz)


Como na generalidade das salinas atlânticas, as salinas da Figueira da Foz (litoral da Região Centro a cerca de 50Km a oeste de Coimbra), desenvolvem-se no interior de um estuário, neste caso o do rio Mondego, que é um dos principais cursos de água de Portugal, cuja nascente se localiza no interior do maior maciço montanhoso de Portugal (Serra da Estrela).
A história das salinas na Figueira da Foz, desde o século XII até finais do século XVIII, é uma história de conquista permanente de terrenos para a actividade salineira, com momentos de maior ou menor expansão ao sabor das crises e conjunturas. Em meados do século XX, as salinas ocupavam 798ha, repartidos por cerca de 229 unidades que ocupavam 3 diferentes áreas do estuário: Vila Verde na margem norte (17 salinas), Lavos na margem sul (71 salinas) e a Ilha da Morraceira pelo meio (141 salinas). Por essa época trabalhavam largas centenas de pessoas no sal, sendo um dos grandes pilares da economia local.
Através do porto da Figueira da Foz o sal era transportado para muitos locais do mundo, e para além da exportação, havia um mercado regional de grande importância. O sal era transportado em barcaças e subia o Mondego até à foz do Dão, daí era carregado em carros de bois até um entreposto situado no cruzamento de várias vias, cuja importância foi suficiente para que a localidade viesse a ter o nome de Carregal do Sal (100km a Nordeste da Figueira da Foz), sendo daí distribuído para muitas localidades do interior centro de Portugal, chegando mesmo a Espanha.
A importância local do sal motivou uma verdadeira cultura salineira, expressa no folclore (Rancho das Salineiras de Lavos), na gastronomia (peixes salgados, batatas no sal) e em numerosas expressões e técnicas que apenas existem na Figueira da Foz. Entre estas singularidades inclui-se a gestão comunitária dos viveiros que abastecem as salinas, cuja posse é comum e que funcionam também como pisciculturas extensivas, em que a pesca é feita anualmente.
A partir de 1970 a situação alterou-se radicalmente e iniciou-se um longo processo de abandono e reconversão para outras actividades (aquacultura) e destruição (obras portuárias e rodoviárias). Após a década de ouro do salgado tradicional, a região assiste a um paulatino declínio da actividade salineira e o aquoso reticulado típico da região, coberto de montículos brancos entre a Primavera e o Estio, deu lugar a uma progressiva paisagem cor-de-abandono, seca e improdutiva, atravessada por esteiros onde, aos poucos, foram também adormecendo os longos bateis de
Investindo no nosso futuro comum
O SALGADO DA FIGUEIRA DA FOZ UM JARDIM DE SAL
sal, deixados à mercê de uma sorte que se fez igual para todos os elementos do salgado: a de se tornarem em velhos esqueletos de madeira esquecidos num tempo célere demais para que se tomasse consciência das muitas e importantes perdas que com eles se atolavam.
As salinas de Vila Verde desapareceram e quer a Morraceira quer Lavos viram a sua área reduzir-se consideravelmente. No entanto apesar de actualmente restarem apenas menos de ¼ das 229 salinas originais, o salgado da Figueira não deixa de impressionar como exemplo paradigmático de uma paisagem de Jardins de Sal, pois o delineado dos compartimentos é particularmente regular e bem cuidado havendo numerosas ordens de compartimentos e canais, cujos pequenos muros são forrados por madeira. Associado a cada salina existe o típico armazém do sal, construção em madeira com capacidade para albergar 200 Toneladas, e que adopta soluções construtivas muito interessantes, e particularmente bem adaptadas ao meio.
Todas estas características conferem às salinas da Figueira da Foz uma imagem de construção, obra e de grande engenho humano.
Consciente da importância e da necessidade de conservar a paisagem das salinas da Figueira da Foz, a Câmara Municipal adquiriu no ano de 2000, a Salina do Corredor da Cobra – Lavos -, com o seu armazém associado, dotando-a ao longo destes anos, de alguns elementos complementares, tais como uma Rota Pedestre, uma Rota Fluvial e já mais recentemente de um Centro Interpreta-tivo, também designado por Núcleo Museológico do Sal, um espaço aberto, cam-po de experimentação e produção de conhecimento, estruturante de novas identidades que o constituem, a partir de diferentes formas de relação entre Homem, Sociedade, Cultura e Natureza. Todo este conjunto tem servido para desenvolver alguns projectos comunitários, do qual destacamos o ECOSAL ATLANTIS – um programa estratégico de desenvolvimento integral e sustentável das salinas do Atlântico.
Tratando-se de um Projecto com uma vertente turística muito forte, cujas boas práticas estão orientadas para o turismo ecológico, as acções propostas e a serem desenvolvidas até 2012, para a Figueira da Foz centram-se, na sua maioria, no território do salgado, compreendendo especialmente dois grandes grupos de produção de sal artesanal: Armazéns de Lavos e Ilha da Morraceira.
Pretendemos a requalificação da Rota das Salinas e do espaço salícola onde esta se insere, melhorando os seus acessos e dotando-a de infra-estruturas apetecíveis e dignas para o crescente número de pedestriantes e visitantes que, cada vez mais, procuram este espaço, reconhecendo-o como um local único e de singular beleza.
Nos nossos visitantes e viajantes logramos conquistar a vontade de redescobrir em cada visita o privilégio único do contacto com a beleza idílica destes nossos, cada vez mais reconhecidos, Jardins de Sal.
Sónia Ferreira Pinto (Câmara Municipal da Figueira da Foz)


Texto publicado na newsletter do Projecto EcoSal: ver

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